A fotógrafa Regina Suriane é uma das artistas selecionadas por renomados curadores brasileiros para compor a exposição de artes plásticas na Casa Brasil (Rio de Janeiro) durante o período de realização dos Jogos Olímpicos.

A imagem nomeada Buiuna foi fruto do projeto Carajás Visuais Entre Rios e Redes, realizado em 2013 pela empresa de produção cultural Tallentus Amazônia, da gestora e pesquisadora cultural Deíze Botelho.

Sob o patrocínio da FUNARTE e da Prefeitura de Marabá, 17 barqueiros realizaram uma performance fluvial, encenando a lenda da buiuna - cobra grande. A performance aconteceu no dia 1º de maio de 2013, encerrando o processo de pintura de 30 antigas embarcações de madeira, vinculadas a Associação dos Barqueiros Marítimos de Marabá, que trafegam no rio Tocantins. Na época, a ação nomeada BarCor- Estética Tocantina, foi coordenada pelo artista Maurício Adinolffi, com a participação de Antonio Botelho, Marcone Moreira, Jonas Carneiro e Antonio Sérgio.

Registrada pela lente de Regina Suriane, a imagem da performance ganhou o mundo,  foi selecionada pelo Arte Pará 2013; exposta na revista internacional "brasileirosmundoafora", da produtora Claudia Muller; no Atelier 397 em São Paulo; e agora, exibida na cidade do Rio de Janeiro para mais de 10 mil visitantes que assistem a Olimpíada 2016.

Como um labirinto festivo, a Casa Brasil nos convida a reconhecer a diversidade cultural e artística brasileira. Ao caminhar pelo espaço, o visitante se depara com estandes que exploram diretamente a cultura nacional: das artes plásticas ao patrimônio, passando pelo folclore e pela indústria criativa. As manifestações são apresentadas com exuberância de cores e formas, com a exposição de elementos típicos ou a reprodução de exemplares. Estima-se que os atrativos sejam vistos gratuitamente por 10 mil pessoas, diariamente, até o dia 18 de setembro. O espaço está localizado no Píer Mauá, no centro do Rio de Janeiro.

Artes Plásticas - Na Galeria MinC, realizada pelo Ministério da Cultura, estão reunidas Na exposição montada para a Casa Brasil, estão contemplados os artistas: Tancredo de Araújo (O Jogador de Futebol, serigrafia, 1984), Leonardo Costa Braga (Olho Mágico, fotografia, 2015), Abraham Palatnik (Obra sem título, ripas de madeira pintadas com acrílico, 2004), Bernardo Teshima (imagem do projeto A cidade precisa de praias, fotografia), Regina Suriane (Performance fluvial dos barcos Homenagem lenda da buiuna cobra grande Projeto Carajás Visuais, fotografia, 2012), Roberta Carvalho (Arte e Natureza – Projeto #Symbiosis, projeção digital videográfica, 2011), Rubem Grilo (Marionetes, xilogravura, 1974), Leonardo Guelman (Cariri – a morada e o sagrado, fotografia, 2013), Fernando Lindote (Colóquio na Praia, óleo sobre tela, 2011) e Gabriela Machado (Candeia 1 e Candeia 2, acrílica sobre linho, 2010).

 

A biblioteca Folhas da Vida, do Rios de Encontro, o projeto eco-cultural e socioeducativo, enraizado na comunidade Cabelo Seco, realizou seu terceiro Festival da Pipa, no sábado passado, dia 06 de agosto. A participação de mais de 60 crianças e adolescentes do bairro, coincidiu com a notícia de que suas duas últimas edições estão recebendo mais de 40.000 visitações por semana no seu canal do YouTube, e já ultrapassam 460.000 leitores. O Festival de Verão encerra no sábado, dia 20 de agosto, com a grande bicicletada "Eu Sou o Pedral do Lourenção".

"Este festival foi completamente diferente do que em 2014 e 2015", disse Alanes Soares, coordenadora da biblioteca Folhas da Vida e uma das rodas de criação. "No primeiro ano, tivemos mais participação de adolescentes, levando pipas até uma balsa no Rio Tocantins para o proteger e comunicar ao mundo 'deixa nosso rio passar'. No segundo ano, ficamos surpresos com o grande número de crianças, participantes da Escola AfroMundi de Dança, da biblioteca e do Cine Coruja, com jovens cuidando delas e as ajudando a fabricar e empinar pipas. Neste ano, as crianças se dividiram, meninas curtindo mais o processo de criação em grupo, e meninos se dedicando à empinar suas pipas no céu da Orla."

Manoela Souza, coordenadora do festival junto com os jovens coordenadores do projeto, destaca as qualidades que unem as edições. "Todos os anos, anotamos concentração, cuidado com o outro, apoio solidário e, sobretudo, a vontade de dedicar horas, fabricando esta tecnologia antiga, na beleza às margens do Tocantins. Este ano, os jovens da comunidade em maior risco realmente deram uma força imensa, coordenando a produção de talas artesanais e orientando crianças, com a maior calma e paciência. Realmente, é um processo juvenil auto-gestionado, que afirma a cultural ribeirinha da comunidade."

"Temos que pensar porque nossos dois vídeos do festival da pipa no YouTube tem tanta popularidade", reflete Dan Baron, coordenador pedagógico do projeto. "Percebemos que um festival na beira de um rio amazônico demonstra uma beleza e capacidade infantis de ler e escrever sonhos de liberdade nos ventos e no céu, uma alfabetização ecológica intuitiva. Mas observando desde as crianças mais novas até os jovens mais espertos fabricando pipas, percebemos além do aprendizado de autonomia e cooperação, o processo de criar comunidade. Existe o extraordinário conjunto do olhar concentrado, da mão e da mente em sincronia, para realizar uma ideia nova, do zero, em um sonho existencial."

"Cada escola pode realizar seu festival da pipa, junto com a comunidade", propõe Dan. "Em contraste com o consumo do já feito no celular ou no vídeogame, isolado e em silêncio, com as pipas cada criança está criando e co-criando um ambiente pedagógico, e produzindo um brinquedo, se admirando e admirando outros, em grupo, desenvolvendo alfabetizações física, matemática, plástica, motora, estética, social e até emocional, na sua primeira infância. Enraizado na cultura popular, a criação da pipa na briza e no sol, é uma complexa pedagogia rica, que manifesta e cultiva sensibilidade ecológica amadurecida para se transformar em consciência socioambiental. Vamos ampliar isso como ação criativa aqui e em 40 paises no nosso encontro mundial, Rios de Criatividade', em novembro de 2016, para preservar os Pedrais do Lourenção e os ventos das chuvas que levam o rio invisível no céu amazônico, ao mundo."

 

Rios de Encontro, o projeto eco-cultural e socioambiental enraizado na comunidade de Cabelo Seco, se iniciou seu Festival de Verão 'Afro Raiz' no dia 18 de julho com uma roda com 22 estudantes de antropolgia cultural e estudos ambientais do EUA e Canadá, e conclua sua primeira semana, com uma oficina aberta hoje (26) na Unifesspa (17h), e uma grande mostra nesta quarta feira, as 20h15, de novas coreografias Africanas. A roda das Américas e residência sul-norte, afirmam o caminho internacional rumo à Festival Beleza Pan-Amazônica em defesa do Rio Tocantins, em novembro de 2016.

A mostra é fruto de um curso de 20 horas de percussão e de dança, ministrado pelos artistas nacionais Simone Fortes e Erik Djikstra. Vem integrando 10 jovens coordenadores do Rios de Encontro (incluindo Cia AfroMundi e percussionistas Tambores da Liberdade), educadora popular Luciana Melo, e a professora Patricia Luz e seu filho, Luan Holanda. Esta turma diversa apoiou os artistas em residência realizar uma oficina para crianças da AfroMundi Mirim, uma grande oficina para 60 estudantes da Pedagogia do Campo da Unifesspa, e vai compartilhar coreografias de Guiné Bissau, Mali, Senegal, Costa do Marfime e da cultura popular afro-brasileira numa oficina aberta à Marabá, na universidade (Unifesspa, Campus 1) hoje, das 17h-19h30.

"A residência está sendo supreendente!", disse Alanys Soares, bibliotecária da Folhas da Vida, cujo primeiro poema saiu na Galeria do Povo em Cabelo Seco, sábado passado. "Não sei tocar, e pensei que o curso era só para dançarinas e percussionistas experientes. Mas acabei aprendendo como tocar diversos ritmos no Djembe, até sonhando sobre eles em cama! A gente grava esta linguagem na pele, que hoje sei tem memória. Mas também, aprendi sobre África e sobre como criar um coletivo, baseado em escuta, generosidade e respeito pela percussão como primeira linguagem da vida."

"Estes jovens coordenadores são extraordinários,", comente dançarina afro-contemporânea Simone Fortes, visitando a Amazônia pela primeira vez. "São artistas, gestores e produtores inteligentes, com um compromisso contagiante com a preservação da Amazônia. Reunem às 8h num cafe de manhã de produção e dançam e tocam até a noite. Falam com propriedade sobre a história violenta e corrupta do Sudeste do Pará, mas são alegres, criativos e unidos! E já estão criando uma nova geração, AfroMundi Mirim, que interpreta coreografias que eu passei à sua coordenadora, Camylla Alves, em 2014. É emocionante! Vamos voltar para ajudar realizar o Festival Beleza Pan-Amazônica, no final do ano".

Coordenador geral, Dan Baron, identifica uma dimensão esperançosa nesta residência de formação: “Estamos vivendo um capítulo gravíssimo na história humana, de violência e corrupção institucionalizadas. Mas nosso festival mostra como, em baixo do radar, tem projetos éticos e sustentáveis, já maduros, coordenados por jovens que optam em dedicar uma parte de suas ferias se preparando para um futuro bem diferente. E tem milhares destes projetos em cada continente do mundo. Para nossos jovens, a convivência com Simone e Erik demonstra que vale sonhar e escolher uma visão colaborativa. Tem um mundo cooperativo emergendo, para substituir o mundo competitivo e falido. Nosso festival de verão mostra que é possível reinventar as raízes do passado e as transformar em antenas culturais do futuro."

O Festival de Verão “África Raiz” convida Marabá participar numa oficina final hoje, dia 26 (às 17h-19h30, na Unifesspa, Campus 1), e na mostra no dia 27 (às 20h30), de novas coreografias, cine e biblioteca comunitários, e um sorteio afro-latino, na pracinha de Cabelo Seco. Mais informação é disponível da Manoela Souza, gestora cultural: 94 99192 0171 ou 91 8847 8021.

 

O projeto eco-cultural e socioeducativo, Rios de Encontro, realizou em Cabelo Seco nesse final da semana uma segunda reunião de gestores nacionais da Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA), com a participação da coordenação de Cultura da Proex-Unifesspa, numa vivência no Pedral do Lourenção, para idealizar o Festival Beleza Amazônica que vai acontecer em novembro de 2016. Na sua quinta edição, o Festival contará com a participação simultânea de mais de 40 países.

O encontro da coordenação nacional da ABRA começou na noite do dia 27 de julho com a festa de encerramento de uma semana de formação em dança-percussão afro-raiz para os jovens coordenadores da Cia AfroMundi, Tambores da Liberdade, biblioteca Folhas da Vida e Rabetas Vídeo Coletivo. Mais de 150 moradores, artistas, gestores e colaboradores assistirem os 20 integrantes das oficinas apresentarem coreografias de Guiné Bissau e danças afro-brasileiras que culminaram em uma ciranda aberta de dança afro. "Moradores da comunidade que nunca haviam dançado Afro-Raiz se integraram nas quintas gerações presentes na roda", sorriu Camylla Alves, coordenadora da AfroMundi, que se integrou também nos ritmos de percussão. "Com a residência, realizamos oito anos de sonho. Resgatamos as raizes de todos nós, sem palestra, sem exclusão de ninguém. Foi uma noite histórica!".

Para Daniela Silva (22 anos) do movimento Xingu Vivo Para Sempre, que recepcionou os jovens coordenadores de Rios de Encontro em Altamira em maio, a festa de Afro-Raiz, foi exemplar. "Sou jovem negra liderança, lutando para preservar o Rio Xingu. Cheguei para alertar Marabá ficar ligada sobre as falsas promessas das mineradoras e governantes. Fiquei emocionada ver crianças de AfroMundi Mirim dançando com tanta autoconfiança e afirmação de sua identidade, na praça! Rios de Encontro já inspirou nosso movimento. Agora, junto com ABRA, vai contagiar o mundo com seu Festival Beleza Amazônica nas redes sociais. Foi uma honra para mim ser convidada para idealizá-lo."

Junto com coordenadores de cultura da Proex-Unifesspa, Pontão de Cultura baiano, Thydewa, Fotoativa e Humanas Tradução de Belém, e arte educadores da Organização Multirão da Meninada de Minas Gerais, da Economia Solidária de Santa Catarina e da TV Ovo Comunitária do Rio Grande do Sul, Daniela participou numa vivência no Pedral do Lourenção no Rio Tocantins. Os 12 gestores experimentaram com 'esculturas humanas', filmadas com drone pela equipe do jornalista Ulisses Pompeu, para imaginar possíveis intervenções com todos os participantes em novembro. "Visitando a beleza do Pedral do Lourenção me tocou profundamente", explicou Gabriela Machado de Juiz de Fora, Minas Gerais, numa entrevista na Rádio Itacaiúnas no sábado com Daniela. "O Rio Paraibuna que perpassa Juiz de Fora recebeu Marmelos, a primeira hidrelétrica na América do Sul, em 1889. Hoje o rio é envenenado, morto, sem peixe. É uma tecnologia pré-histórica que países informados com direitos humanos já substituíram com energias limpas e inteligentes. Alistamos projetos de futuros sustentáveis para interagirem em novembro com comunidades e escolas, em Marabá, para transformar a cidade em um fórum de debate, através das artes."

ABRA dedicou três dias inteiros, idealizando uma proposta para o Festival Beleza Amazônica 2016 que contempla todas os projetos inovadores de Rios de Encontro e idéias das rodas realizadas em Marabá, e integra centenas de 'projetos pela vida' do mundo, recebidos por streaming. Estarão presentes também projetos de economia colaborativa, reciclagem de lixo e energia solar (Santa Catarina), escolas sem provas e paredes (Minas Gerais), celulares verdes (Bahia), estudos linguísticos através de filme e canto, e urbanismo ambiental (Pará), TV comunitária e formação infantil (Rio Grande do Sul), bibliotecas na praça (Minas Gerais e Ceará), junto com histórias da vida virtuais de centenas de outros 'projetos pela vida' dos países nórdicos, asiáticos, latinos, africanos e europeus. Assim, ABRA espera que as comunidades de Marabá possam se vivenciar como 'um município inteligente'.

"Além desta convivência", explica Dan Baron, coordenador da articulação internacional, "milhares de comunidades, redes, e movimentos no mundo vão realizar ações fluviais que estarão postadas no YouTube e Facebook, para gerar uma pororoca de solidariedade com o Pedral do Lourenção, que defendem o Rio Tocantins e a Amazônia inteira. Vamos receber dentre os principais mestres indígenas, cientistas ambientais, economistas, pedagogos, cineastas, artistas, jornalistas e gestores de micro-crédito e moeda comunitária do mundo para compartilhar seus conhecimentos. Amazônia não pode tornar-se uma fábrica de morte, um deserto de lixo, um exportador de pragas e doenças. Juntos, vamos desmentir a crença que estas grandes obras são inevitáveis e mostrar que o futuro é aberto."

O encontro da ABRA encerrou com unidade sobre a marca do festival em novembro. "O Festival Beleza Pan-Amazônica 2016 terá as crianças na frente, coordenadas por jovens", disse Daniela. "Vamos deixar o futuro cantar e encantar!"

 

Tiese Teixeira Júnior acaba de lançar o livro de contos Pelas Margens do Pará e já seduziu uma escola do Amapá, que sozinha adquiriu 100 exemplares da obra. Uma escola do município de Goianésia também adotou o livro que foi utilizado em um trabalho de literatura por alunos do Ensino Médio. O livro está disponível nas maiores livrarias virtuais do Brasil: Saraiva, Cultura e Amazon. Para quem mora em Marabá (PA) e região, a Casa do Livro, na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), também tem alguns exemplares para venda.

Graduado em História, Tiese é mestre em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia, pela Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará e faz doutorado no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Confira abaixo a sedutora resenha do livro produzida pelo professor de Literatura Jefferson César Reis:

Você é um leitor que gosta, literalmente, de viajar? Se sim, vai se recordar de muitos momentos de suas experiências, seja pelas águas seja pelas estradas dessa exuberante Amazônia; se não, vai conhecer fatos da realidade ribeirinha e de pessoas que frequentam/enfrentam as malhas fluviais e rodoviárias desse vasto estado. Tiese Teixeira Júnior, no seu mais novo livro de contos intitulado Pelas margens do Pará,publicado pela editora Fragmentos, descreve com maestria essas verdades do mundo amazônico.        É sabido que a literatura oferece imagens para que possamos nos reconhecer e conhecer os outros, por meio dos quais sempre aprendemos mais sobre nós mesmos. A obra de Tiese Teixeira Júnior propõe nas entrelinhas de suas páginas uma busca delinear de nossa identidade, onde é atento à complexidade relativa às relações de poder, aos embates de costume, às mudanças sociais, à miscigenação e aos deslocamentos geográficos. Seja de canoa, barcos, navios; seja pelas estradas e vicinais mais longínquos percorridos por moto táxis, vans, ônibus e até mesmo a pé, as viagens descritas em Pelas margens do Pará podem remeter a nós mesmos, acostumados a “sentir na pele” vivências desse tipo. Até mesmo aqueles que nunca tiveram tais vivências passarão a refletir o quanto os personagens são movidos pela força de vontade, de não desistir de seus objetivos, de não subestimar o outro, enfim, de não pensar em fracassar.             Assim, Tiese Teixeira Júnior desenvolve em nós, leitores, a cota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante. Exemplos bem claros dessa humanização são os calouros Pedro, Silvia e Geraldo, que passarão a estudar em Marajó depois de terem sido aprovados no vestibular (Surpresas); o seu Julião, mestre na arte de fazer canoas e seus dois garotos: Gordo e Deco (Velhos Amigos); a preocupação do comandante de barco Miguel e sua mulher Maria com a filha de 15 anos prestes a casar (Por Estirões e Cantorias); da Madalena, que depois de anos morando em Belém, retorna ao lugarejo ribeirinho onde nasceu (Pelas Margens do Pará); do narrador-personagem que detalha seu percurso sobre o igarapé mamoranazinho até chegar num retiro pequeno onde se fazia farinha (Sob a Copa das Árvores); enfim, todos com características bem típicas de quem navega ou navegou pelos rios e igarapés do Pará, cada um com suas peculiaridades. Seus personagens – pessoas simples – são a face de um Pará miscigenado, uma vez que o processo de ocupação do espaço paraense tem uma grande história que envolve uma série de saberes empíricos.

E o que dizer daqueles personagens passageiros de vans ou ônibus? Certamente, você leitor(a) vai se identificar com uma delas, pois a forma em que são conduzidas as narrativas expõem algo que talvez já tenha vivido ou testemunhado. Personagens como a Fernanda, vendedora de roupas que enfrenta cerca de cinco horas de van para vender suas confecções (Paradas); da amizade da enfermeira Cláudia e da professora Haline, que se conheceram na viagem de ônibus a fim de tomar posse do concurso público a que foram aprovadas (Vida Nova); do sofrimento de Rosa, que constantemente enfrentava a Transamazônica para tratar-se de um câncer em Belém, na companhia da filha, Lara (Idas e Vindas); do motorista que conduzia o coletivo falando ao celular, para desespero do passageiro indignado com aquela atitude (Entre Chamas); do motorista de van que, exausto de trafegar pelas estradas esburacadas, onde em alguns trechos os buracos eram tapados por garotos em troca de alguns trocados, mas que encontrava consolo ao ver a força de vontade de Rose, a estudante universitária que parecia não ligar para estas dificuldades (Infinidades).

O autor não deixou de fora de suas narrativas àqueles que viajam ou que tiveram que viajar a pé, como o caçador que andava horas pela mata com o propósito de abater um porco do mato (Dia de Caçador); do homem que tivera que seguir viagem por 12 km a pé depois que o motorista do ônibus em que viajava informou que não passaria na vila de seu destino (E agora?). Narrou a dificuldade de estudantes e professores para se locomoverem, na precariedade do transporte escolar (Banco de Madeira) ou nas D20 da vida (Vou à Cidade); a rotina de um mototaxista ao levar um amigo a um assentamento (Um Dia Incomum); e, claro, daqueles que apreciam a ação dos vendedores nos terminais rodoviários e sentem os mais variados aromas, como a do milho cozido vendido pela garota de 12 anos, Rose (Às Pressas).

É notório que o autor de Pelas Margens do Pará é dotado de um saber local, oportunizando ao leitor explorar a compreensão (nas esferas literária e linguística), a interpretação e a expansão dos sentidos atribuídos à leitura, consolidando uma valorização dos contextos sociais, como a Amazônia, espaço descrito nos seus textos. Assim, sem desconsiderar o sentido histórico de cada conto, sua função e valor no momento específico em que foi escrito, importa, sobretudo, seu interesse literário afinado com as demandas da vida contemporânea.

Tiese Teixeira Júnior possibilita ao seu leitor ampliar esse universo do mundo amazônico, deixando um pouco de lado aquela imagem de que, quando se fala de Amazônia, só nos vem à mente a arara azul, o Rio Amazonas, a onça pintada, o jacaré, árvores imensas, índios, entre outros. Cada página revela a outra face da região amazônica sob o olhar dos viajantes, que são os frequentadores das margens, seja dos rios seja das rodovias do estado do Pará. . Pelas Margens do Pará deixa um ensinamento: a de que a Amazônia, na verdade, são Amazônias, como ilustra muito bem a capa da obra.