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O projeto eco-cultural e socioeducativo Rios de Encontro voltou de uma viagem de 20 dias de reuniões com redes nacionais na França, Alemanha e República Tcheca na quarta passada. Organizada para articular o projeto Rios de Criatividade e alertar o mundo sobre a grave ameaça aos direitos educacionais, culturais e ambientais no Brasil e, em particular, à vida sustentável do Rio Tocantins, Dan Baron e Manoela Souza dialogaram com diretores de escolas e universidades públicas e gestores culturais e políticos de 17 países da União Europeia, para criar colaborações entre Marabá e cidades sustentáveis.

"Em Paris, renovei amizades criadas em 2013", sorri Manoela Souza, "quando Évany Valente dos Tambores da Liberdade e Latinhas de Quintal abriu o VIII Congresso Mundial de Teatro Educação com Dan Baron. Sentamos com diretoras dos departamentos universitários de teatro e dança que relataram sua vida atormentada por uma dupla violência, do terrorismo numa guerra que massacra cidadãos nas suas casas e ruas, e da pobreza e do racismo criados pelo massacre da educação e saúde públicas, sonhos populares e aposentadoria. Ninguém sabia sobre a violência que estamos vivendo aqui no Brasil, muito menos a seca extrema aqui na Amazônia."

Além de visitar o Museu Rodin, Mano Souza e Dan Baron visitaram uma exposição de escultura contemporânea do artista chinês, Ai Wei Wei, reconhecido mundialmente por seu compromisso com a proteção dos direitos humanos e luta pela democracia na China. Saíram de quatro dias em Paris fortalecendo colaborações com a Universidade de Paris Leste e com arte educadores e artistas comprometidos com o Brasil. "Temos agora uma rede de escolas e comunidades que vão participar na nossa 'pororoca de solidariedade' com o Rio Tocantins, e querem elaborar projetos financiados pela União Europeia", disse Manoela.

Em Frankfurt, os arte educadores de Cabelo Seco apresentaram um vídeo sobre Rios de Encontro com fragmentos do espetáculo 'Nascente em Chamas' da Cia AfroMundi, como contribuição a celebração de 25 anos da Rede Alemã de Teatro na Escola (BVTS), praticado por 5000 professores do Estado de Hesse e 75.000 professores no país. Convidados pela Escola de Pedagogia Teatral, Dan Baron e Manoela Souza oferecerem um curso de Alfabetização Intercultural, para ajudar escolas e comunidades elaborarem projetos em resposta aos rios de refugiados da Síria, Turquia e países africanos, deslocados, em busca de segurança cultural, livre de perseguição.

"Igual com muitas cidades na Europa", explica Dan Baron, "Frankfurt tem interesse em como formar jovens para criar comunidades e escolas sustentáveis. Mas olhando pelas janelas do avião, vendo milhares de casas com placas solares, sabíamos que seria uma troca. Alemanha já transformou sua história fascista de genocídio em projetos de solidariedade e governança popular. A Rede BVTS vem colaborando com nossa Rede Brasileira de Arteducadores (ABRA) desde 2004. Depois de nossa apresentação e curso, dezenas se comprometerem em ajudar gestionar Rios de Criatividade e colaborar em Marabá. Nos informaram sobre grandes redes e plataformas virtuais que tem uma ampla história de solidariedade com os rios e florestas do mundo. Indignarem-se com o vídeo sobre a atual seca do Rio Tocantins, com depoimentos sobre a destruição do Rio Xingu, criados por nossos jovens do Rabetas Vídeos Coletivo. Já propuseram ajudar criar uma indústria de energia solar, com a formação de jovens de Marabá, na Alemanha."

Em Praga, capital da República Checa, Dan Baron convidou lideranças de redes culturais e de arte educação de 15 países europeus participarem no Rios de Criatividade. Já aprovado pela Associação Mundial de Teatro Educação (IDEA), o projeto será apresentado no encontro da Aliança Mundial pela Arte Educação e UNESCO, em Guangzhou na China, no inicio de Dezembro. Encaixou-se numa discussão ampla sobre direitos humanos e colaborações entre comunidades e escolas, europeias e latino-americanas, para proteger a democracia. No meio de depoimentos sobre mais de 30.000 professores presos em Ancara, Turquia, nas ultimas semanas, e milhões de refugiados africanos nas ruas da Europa, Rios de Encontro virou um exemplo inspirador sobre o potencial juvenil. 

"Fiquei emocionado", conclui Dan, "cantando com um agogô na mão, numa reunião na Universidade de Praga. Numa cidade de quase 1500 anos, numa sala de veteranos de lutas contra o fascismo e stalinismo, este símbolo de todas as florestas extintas de castanheiras, provocou muitas lágrimas. Num fórum de tanta consciência socioambiental e prática de bem viver, fatos desconhecidos sobre o golpe no Brasil e da industrialização da Amazônia que estamos sofrendo, impactaram. Claro, questões sobre refugiados, pobreza extrema, e 'terrorismo' cotidiano, ocupam quase todo o imaginário europeu. Mas, no meio de tantas placas solares e generosidade humana, a esperança cresce. A gente sente que a crise mundial é uma grande oficina de aprendizado, doloroso sim, mas que já está liberando muita vontade de colaborar e inovar. Rios de Criatividade é apenas uma de tantas manifestações disso, no mundo."

 

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