(*) Hellen Pamella Silva dos Santos

 

Em Marabá, o processo de urbanização partiu, sobretudo, da atividade extrativista da borracha, e da produção de castanha-do-Pará, esta última de forma mais intensa a partir dos anos de 1920 após a “crise da borracha” que deixou suas marcas também na queda da hegemonia do produto, substituindo a “cidade dos oligarcas da borracha” para a “cidade dos oligarcas da castanha” este primeiro momento é marcado pela liderança de Deodoro de Mendonça e então a partir de 1950 pela família Mutran.

A partir de 1970 é possível perceber uma maior atuação do governo brasileiro sobre a região amazônica através da implantação de projetos que visavam a “integração” desta porção do país à economia nacional. Entre esses projetos estão o PIN (Programa Nacional de Integração) onde estão inseridas medidas como a construção das rodovias Transamazônica (BR-230) e a Cuiabá-Santarém (BR-163). Ainda como estratégias visando a integração da Amazônia ao restante do país, foram postas em prática pelo governo brasileiro o II Plano Nacional de Desenvolvimento criado em 1974, atuante na dinamização das cadeias produtivas como a exploração de madeira, a pecuária de corte, a mineração. Outra estratégia foi a criação do Programa Grande Carajás em 1980, que dividia a região amazônica em 15 polos de desenvolvimento, entre eles, estava o polo de Carajás que abrangia os municípios de Marabá, São João do Araguaia, Conceição do Araguaia, São Felix do Xingu e Santana do Araguaia. Este polo estava pautado principalmente na mineração na área de Carajás e para dar suporte a este programa é inaugurada no ano de 1984 a usina hidrelétrica de Tucuruí no município de Tucuruí localizada no município que dá nome à hidrelétrica, a Estrada de Ferro Carajás em 1985, e o porto de Ponta da Madeira 1986, localizado ao lado do Porto do Itaqui em São Luís (MA). Estes programas e projetos, trouxeram grandes transformações para os municípios por ele abrangidos, em Marabá a construção das pontes do Itacaiúnas ligando os núcleos Cidade à Marabá Pioneira e a construção da ponte sobre o rio  Tocantins, ligando os núcleos São Felix  e Nova Marabá,  assim, o cenário econômico da cidade, se altera principalmente nos últimos anos do século XX com a chegada e implantação das usinas siderúrgicas, transformando o município em um importante polo industrial do minério de ferro e gerando um fluxo migratório intenso neste período, assim, tanto a ferrovia quanto as estradas são as principais vias de chegada da população vinda de outras regiões do país. O anúncio da instalação da ALPA também se apresenta como responsável, pela alteração da dinâmica populacional, econômica e política no município de Marabá nos anos que seguem após a propaganda deste projeto no ano de 2008.

Em vista do aumento populacional, demandado principalmente por conta dos novos projetos na cidade, entra em cena uma outra questão, que diz respeito a formação/produção das periferias no município de Marabá, e mais especificamente a questão do habitar. O assunto da moradia sempre foi tema que não se esgota em seu conteúdo conflituoso, visto que, para se morar é necessário ocupar um determinado espaço e o espaço por si só já é alvo de disputa entre os diversos segmentos da sociedade e esta disputa se fortalece quando ao espaço é agregado uma infraestrutura, que por sua vez, possibilita a reprodução dos grupos sociais em sua condição humana. Esta necessidade do indivíduo enquanto ser social, tem seus reflexos na configuração espacial da cidade e a ela é atribuída a formação das periferias, em especial, o surgimento das ocupações urbanas, as popularmente conhecidas: invasões.

O aumento dos assentamentos informais em Marabá está diretamente ligado ao crescimento repentino da população deste município, que por sua vez tem suas bases na implantação do polo siderúrgico na década de 1980 e posteriormente nos anos 2000, relacionados a especulação quanto a instalação de novas indústrias como foi o caso da ALPA (Aços Laminados do Pará) e do projeto ALINE, projeto voltado para laminação das placas de aço da ALPA, além das obras hidroviárias. Este crescimento desordenado, impulsionado pela instalação de empresas no município como as usinas siderúrgicas em projetos como a ALPA consequentemente demandou uma grande procura por moradia que em um primeiro momento não pode ser absorvida pelo pequeno mercado imobiliário local, tão pouco foi atendida pelo Estado, atuante na esfera do poder municipal e estadual.

No decorrer dos anos, o número de ocupações urbanas no município de Marabá tem aumentado de forma considerável. De acordo com informações do IBGE, do censo de 2010, a cidade possui atualmente 11 aglomerados subnormais (classificação utilizada pelo IBGE para as ocupações urbanas). Observa-se que a criação de ocupações urbanas informais, já ocorre desde da década de 1980, porém seu ápice acontece na década de 1990 a 2000, período em que ocorre a implantação de mais unidades siderúrgicas no município.

Esta população sem um plano de moradia eficiente, passou a ocupar áreas periféricas da cidade onde se encontravam propriedades públicas ou particulares, como é o caso das ocupações onde estão localizados diversos bairros em Marabá, entre os mais recentes e significativos estão: Bairro da Paz, o São Miguel da Conquista, Bairro Araguaia, popularmente chamada de Fanta, e Nossa Senhora Aparecida, conhecido por invasão da Coca-Cola. Estes novos bairros, que possuem sua população cada vez mais crescente, estão inseridos na vida da cidade, no entanto, esta mesma cidade como espaço produzido pelos diversos moradores, não tem seus serviços à disposição da população de forma igualitária. Esse ponto é perceptível no que se refere ao uso, bem como, a implantação dos serviços públicos em bairros como as ocupações urbanas. Em pesquisas realizadas por estudantes do curso de Geografia da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará – Unifesspa, na ocupação localizada no núcleo Cidade Nova, denominada Bairro da Paz, informam que, para utilizar serviços de uso coletivo como escolas, postos de saúde e transporte público, os moradores precisam se locomover até o bairro vizinho, demandando uma maior quantidade de tempo e desgaste físico, sobretudo por parte dos estudantes que precisam se deslocar diariamente em busca do serviço educacional.

De acordo com a pesquisa, 95% dos jovens que buscam os serviços educacionais nas modalidades fundamental II e ensino médio, levam de 10 a 30 minutos para chegarem nas escolas onde estão matriculados, deste total 55% se deslocam a pé pelo fato do bairro não possuir linhas de transporte coletivo que atenda a demanda da população. A pesquisa mostrou ainda, que para utilizar os serviços de saúde, mais da metade dos moradores buscam as unidades de saúde dos bairros mais próximos, assim, os três maiores procurados são o posto de saúde do bairro laranjeiras que atende 42% dos moradores do Bairro da Paz, 31% se direcionam a unidade do bairro Novo Horizonte e 9% se deslocam para o bairro Liberdade. Esses valores representam uma deficiência considerável no serviço relacionado a saúde ocasionando uma superlotação nas unidades acima citadas.  

A pesquisa aponta ainda que, apesar dos serviços de saúde e educação representarem uma dificuldade para os moradores do bairro, é com serviço de pavimentação e saneamento básico que estão centrados a maior insatisfação dos moradores, sendo que 49% apontaram a falta de asfalto como maior prioridade e 16% citaram a falta de esgoto como maior urgência para o bairro.

 Então o que se percebe de fato, é a falta de políticas públicas que atendam uma demanda que se estabeleceu bem mais por conta de uma promessa de novos horizontes para a cidade. Essas políticas públicas, não estão baseadas somente na questão da disposição de moradia, como pensam alguns, mas também na implementação de infraestruturas que possam suprir as necessidades dos moradores não somente dos bairros periféricos, mas da população como um todo, pois, os serviços existentes atualmente não são capazes de atender a demanda de forma eficiente. Essas necessidades são comuns a todos, entretanto, as mais frequentes nos anseios da população são baseadas nos serviços de saúde, saneamento básico, educação e pavimentação, serviços estes que, são notórios a sua falta sobretudo, nos bairros mais pobres do município, como dito anteriormente.

Percebe-se então que, apesar das dificuldades relacionadas à deficiência no que se refere ao poder público, através da implantação da infraestrutura necessária à comunidade para dar continuidade à realização das atividades cotidianas dos moradores, estes conseguem, mesmo que precariamente, realizar suas atividades, sejam elas escolares, de trabalho ou lazer. Apesar de ser um direito humano essencial à cada ser humano, o acesso a moradia não tem sido eficientemente garantido pelo poder público em nenhuma das esferas, e quando nos referimos aqui, a moradia, não estamos falando somente do ato de residir em si próprio, mas principalmente de usufruir da cidade em toda sua diversidade e funcionalidade, como na garantia da disposição dos serviços de uso coletivo.

 

(*) A autora é estudante do curso de Bacharelado e Licenciatura em Geografia, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa). Pesquisadora dos processos de ocupações urbanas no município de Marabá.

No caso das mulheres negras, o abismo salarial é ainda mais assustador

 

Por Chagas Filho

Embora o Brasil passe atualmente por um acirramento do discurso da meritocracia, que faz a maioria das pessoas acreditar que basta estudar e se esforçar para que todos tenham as mesmas chances no mercado de trabalho e nada vida de um modo geral, os números mostram que – na vida real – não é isso que acontece.

E nem se trata aqui de comparar as oportunidades que os jovens mais ricos têm em relação aos de menor renda. Analisando a questão de sexo (independentemente da condição social), o que se vê é uma grande diferença. Em média, o homem que está no mercado de trabalho em Marabá tem um salário de R$ 2.165,13, enquanto a mulher ganha R$ 1.753,56, o equivalente a 81% do salário dos homens.

E isso ocorre entre profissionais com a mesma formação em praticamente todas as áreas e em quase todas as faixas etárias. Os dados são do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e também do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Existem alguns setores que são discrepantes ao extremo, revelando um abismo de dimensão constrangedora entre homens e mulheres. É o caso dos serviços industriais de utilidade pública. Em média um profissional do sexo masculino nessa área, em Marabá, tem rendimentos de R$ 5.926,75, enquanto uma mulher recebe R$ 2.685,32. Ou seja, uma profissional nas mesmas condições ganha o equivalente a 45% do que ganha um colega homem.

Por outro lado, o setor onde praticamente não se registra diferença entre os vencimentos de homens e mulheres é na administração pública (homens ganham em média 2% a mais). Isso certamente ocorre porque os cargos são alcançados por meio de concurso público ou de portarias que definem os vencimentos para os cargos independentemente do sexo, o que não ocorre na iniciativa privada, onde a negociação é mais flexível.

Em relação à idade, as diferenças salariais se estendem por toda a trajetória profissional de homens e mulheres, uma dura revelação do quanto o caminho para uma igualdade ainda é longo e espinhoso. Mas o maior abismo está entre trabalhadoras(es) de 30 a 39 anos, que é justamente uma fase de promoções e de ascensão na vida profissional. Nessa faixa etária, o trabalhador marabaense costuma perceber vencimentos de R$ 2.449,04, enquanto a trabalhadora ganha em média R$ 1.830,52, uma diferença de 25,3% entre homens e mulheres.

Curiosamente, a partir dos 65 anos (em que já aparece a figura do trabalhador inativo/aposentado), as mulheres marabaenses têm um vencimento um pouco maior que os homens. O salário médio delas é de R$ 2.993,94, enquanto o deles é de R$ 2.661,92, diferença de 11%.

 

Indignação e luta por direitos

Para a professora Ingrid Fernandes, graduada em pedagogia pela UFPA, que atua na rede pública municipal, não há dúvidas de que nos últimos anos tivemos um aumento da presença de mulheres no mercado de trabalho. No entanto, ela entende que essa inserção não significou garantia de igualdade entre homens e mulheres, marcada de diversas maneiras também na diferença salarial estabelecida entre eles.

“Compreendo que independente das especificidades do município de Marabá, as condições desiguais fomentadas entre homens e mulheres no mercado de trabalho assemelham-se em todo o país. Fruto de uma construção sócio-histórica que encontra suporte nas diferenças sexuais, assim vai sendo definido o papel da mulher. Trata-se de diluir a ideia de mulher como um corpo frágil, limitado, para em seguida colocá-lo na condição de submissão, assumindo tarefas e lugares desiguais hierarquicamente determinados”, argumenta a professora, que atualmente é mestranda do programa de Pós Graduação em Dinâmicas Territoriais e Sociedade na Amazônia (PDTSA) pela UNIFESSPA.

Por isso, Ingrid entende que ainda é muito comum encontrarmos mulheres em situação de desvantagem no mercado de trabalho, à medida que são responsabilizadas e precisam conciliar a profissão com a maternidade e as tarefas domésticas. “Nós, mulheres, conquistamos o direito aos espaços, mas falta um longo caminho a ser percorrido rumo a igualdade, respeito e reconhecimento”.

Por outro lado, a advogada Júlia Silva de Paulo, servidora pública federal, chama atenção para o fato de que o disposto no Inciso I do Art. 5º, da nossa Carta Magna (CF/1988), deixa claro que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”. “Partindo desta premissa, fica a pergunta: a que se deve (porque não há justificativa plausível e socialmente aceita) toda esta disparidade nas diferenças salariais entre homens e mulheres? Será que, em pleno século XXI, as mulheres continuam ocupando cargos em níveis hierárquicos mais baixos, pelo simples fato de serem mulheres, mesmo comprovando possuir qualificação/instrução para assumir cargos em níveis hierárquicos mais elevados? Será que o número de mulheres que ingressam no mercado de trabalho (taxas de empregabilidade) continua reduzido, em relação ao número de homens, pelo fato das mulheres serem mais propensas a se ausentarem do mercado de trabalho por um período de tempo (exemplos: gravidez, acompanhar filhos ao médico e/ou em reuniões escolares) do que os homens?”, questiona.

Julia diz mais: “Diante deste triste e intragável cenário, cabe-nos mais indagações do que respostas. Resta-nos torcer pela plena efetividade dos citados instrumentos normativos (mesmo diante da atual conjuntura econômica/política) e, que, continuemos ativamente nesta árdua caminhada (com a esperança sem pura espera, como já dizia o Patrono da Educação Brasileira – mestre Paul Freire, em Pedagogia da Esperança), na busca pela redução/eliminação das desigualdades/diferenças salariais, sejam elas relacionadas à questões de gênero, e/ou raciais, e/ou religiosas etc”.

 

Mulher negra tem os menores salários

(*) Flávia Lisbôa

O que não pode deixar de ser discutido nessa questão das diferenças salariais no mercado de trabalho é o fator racial, uma vez que ele é preponderante para explicar a indiscutível existência de uma hierarquia movida não apenas pelo sexismo, mas também pelo racismo. Uma pesquisa rápida pela internet, a partir de fontes como o IBGE e IPEA, por exemplo, nos fornece números cabais sobre essa hierarquia no mercado de trabalho. É com base nesses números que ouso afirmar (assim como pesquisadores da área têm feito) que as diferenças salariais não passam por escolaridade, mas por preconceito contra a mulher e pela cor da pele das pessoas, o que explica o homem branco ganhar mais que a mulher branca, esta ganhar mais que o homem negro e este mais que a mulher negra.

Por isso, não podemos deixar que o debate sobre as diferenças salariais no mercado de trabalho finde na diferença de gênero, porque o problema não vai só até aí. Esse é só o primeiro degrau de uma escada que hierarquiza diferentes grupos da sociedade, funcionando esse mercado como um reflexo do preconceito que rege nossa sociedade em termos gerais. Mas voltando a falar da condição da mulher, ressalvo então que a mulher negra ganha ainda menos que a mulher branca e que o fator racial é o diferencial nessa questão e é por isso que os problemas da mulher negra não podem ser esgotados no contexto de demandas das mulheres em geral. Esse é um caso típico em que podemos dizer que o buraco é mais embaixo, para a mulher negra ele continua, vai mais fundo.

Não há como negar, os números não mentem sobre o fato de que há hierarquias de gêneros, mas as raciais são ainda mais gritantes para pensar a média salarial dos brasileiros. Enquanto o salário feminino (média nacional) é cerca de 26% menor que o dos homens, pretos e pardos ganham perto da metade (58%) do salário dos trabalhadores brancos. E as mulheres, dentre esses pretos e pardos, ainda recebem os menores salários por ocuparem as piores funções no mercado de trabalho e às vezes nem contam nas estatísticas desse mercado pelo fato de estarem na informalidade ou por trabalharem como domésticas, babás e outras atividades sem carteira assinada.

Assim, deparamo-nos com uma realidade muito triste. A de que a mulher negra sofre uma dupla discriminação, que soma o sexismo e o racismo. Ou seja, ela é discriminada no mercado de trabalho por ser mulher e nas áreas do mercado onde o fato de ser mulher é atenuado ela continua sendo discriminada por ser negra. Estamos falando de mercado de trabalho, mas essa perversa conjugação afeta todas as áreas da vida dessa mulher, o que já chama a atenção, inclusive, para um alto índice de suicídios nesse grupo.

Para os que possam argumentar que se trata apenas de uma questão de escolaridade, pergunto então o que explicaria (senão isso) o nível de desemprego entre as mulheres negras e o fato de não terem “melhores trabalhos” mesmo apresentando maior escolaridade que os homens negros? Por outro lado, também não há como negar o papel das políticas afirmativas, como as cotas e outros programas que promovem a viabilidade de ingresso de negros nas universidades, para mudanças nesse cenário, mas essas medidas ainda não foram suficientes para deixarmos de nos preocupar com essas persistentes e cruéis diferenças.

 

(*) Flávia Lisbôa é doutoranda em Linguística pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

 

 

Estava fuçando uma livraria hoje e, entre as estantes de filosofia e política, o atendente interrompe meu olhar atento, perguntando: “posso ajudar senhor?” Prontamente respondi: “obrigado, estou apenas observando o acervo”. Até aí nada de mais, certo? Sim, até o momento em que olho para frente e, na seção de literatura estrangeira, um senhor exclama ao mesmo vendedor: “foi a poesia que deixou ele vivo!”

Aquela frase roubou toda atenção que, até então, eu dispensava aos livros. Meus olhos passeavam pelos títulos, mas minha imaginação, curiosa, aguardava o senhor falar mais alguma coisa que completasse a sua frase. Mas parece que eu havia ouvido apenas o fim da história. Então, não tive vergonha e, antes que ele escapasse dos meus olhos, exclamei: “bonito isso que o senhor disse!”. Antes que eu pudesse terminar o que estava pensando em dizer a ele, com um leve sorriso no rosto me falou: “tenho um amigo doente que só a poesia o faz sorrir.”

Ele não disse mais nada e se foi acenando com a mão e com a cabeça para mim e para o vendedor ao meu lado...

A frase ganhava vida em minha mente, e depois de foliar alguns livros me despedi saindo às ruas com aquilo entorpecendo meus pensamentos. Sempre imaginei a poesia como uma arma necessária para conseguir dar leveza e ver beleza no mundo. Em alguns momentos, inclusive, sufocado por algum sentimento, experimentei a densidade intolerável da escritura. Mas, ao sair da livraria comecei a pensar: como a poesia pode salvar vidas?

Não sou adepto dos livros de autoajuda, nem quero aqui escrever algo do tipo. Na verdade, quero apenas chegar em casa. Isso mesmo! Quero apenas contar meus passos de volta para casa, naquele dia, e, talvez, neste trajeto, algo nos remeta à poesia.

A caminhada de volta para casa foi um tanto longa, mas fundamentalmente regada pela magia da frase que ouvira. Logo na saída da livraria vi uma mulher sentada na calçada que vendia bombons. Suas mãos se estendiam para todos que passavam. Pelo meu caminhar lento, consegui observar que a maioria das pessoas não conseguia perceber suas mãos estendidas. Alguns viravam a cara para não ver, outros realmente pareciam torná-la completamente invisível, outros olhavam e balançavam a cabeça em sinal de negativo. Diminui ainda mais a velocidade dos meus passos e, ao me aproximar mais, percebi que, quando os passantes não eram tão frequentes, a mulher olhava para cima – quase que numa tentativa de pular os obstáculos visuais de uma rua cheia de prédios altos – para, então, avistar o céu. Quando conseguia ver o que procurava, cantava duas pequenas frases, como num murmúrio. Não reconheci o que cantara, mas percebi o sorriso tímido estampado em seu semblante depois de tantas tentativas de venda frustradas. Ao passar em sua frente, ela prontamente baixou a cabeça e estendeu os braços. Eu olhei bem para ela e pedi um bombom. Ela colocou uma das mãos no saco, pegou um bombom e me entregou. Eu paguei em seguida. Ela balançou a cabeça, deu um sorriso bem discreto, muito menos intenso do que aquele que eu então vi quando ela estava avistando o vazio.

A cidade, logicamente, ignora aquela mulher em vários sentidos. Estar na rua, passar despercebida pelo caminhar de tantos, tornar-se invisível em meio a tanta distração do olhar, parece ser o modo ou o resultado daquilo que a cidade nos ensinou a ver... Nossa sensibilidade, fisgada pela pressa ou por uma vontade repentina de consumo, é quase sempre capturada e, assim, ao escolher o que queremos ver, descartamos boa parte de mundo que poderíamos, mas decidimos não ver. O que isso tem a ver com poesia, poderiam perguntar alguns?

Eu prontamente responderia que exatamente tudo. A maioria daquilo que se passa em nossa frente não é percebida por nossa sensibilidade. Existem muitos lugares do mundo em que os sentidos nunca ousaram pôr os pés. A poesia, sem ter a pretensão de definir o indefinível, é como um afrontamento à trivialidade do mundo, é conseguir apanhar com sutileza aquilo que escapa como afronta, é pôr os pés num infinito sem chão, é criar chão onde até então só existira vazio e criar vazio onde o chão atormenta com sua dureza. Mas quero aqui dizer que poesia também é aquela mulher. A sua existência teimosa afronta a trivialidade do olhar dos passantes, põe chão naquilo que muitos consideram vazio.

No caminhar, em direção à minha casa, só consegui ficar reparando as pessoas passando por mim. Eu estava lento, pensativo e todos com pressa. As pessoas não olham por onde caminham, só caminham. As pessoas não olham para aquelas que passam em direção contrária na rua, apenas, por vezes, esbarram pelo acelerar dos passos. Ninguém parece ter tempo de contemplar algo, quanto mais a si mesmos. O máximo que vi foi uma mulher aproveitando o vidro dos prédios para retocar a maquiagem, num exercício tão repetitivo que, na cerca dos dez segundos parada, em nenhum momento sorriu, em nenhum momento desviou o olhar do improvisado espelho. O sentido parece mesmo fugir das coisas que fazemos na cidade. É cada vez mais difícil projetar significado para nossos atos, nossas emoções. O tempo acelerado parece ter nos roubado a sensibilidade.

Lembrei novamente do rosto da mulher sentada na calçada, olhando o vazio do céu e sorrindo. Em meio a tanta gente acelerada, ela parecia conseguir se conectar com ela mesma. Os versos que ela entoava em música, faziam-na suportar o peso da indiferença. A poesia a transportava em ato para um lugar capaz de lhe arrancar um sorriso. Ela fazia do infinito algo palpável. Num mundo cada vez mais embrutecido, ela não se deixava capturar; seu olhar ao vazio via coisas que os passantes nem teriam tempo de imaginar; seu sorriso denunciava a beleza de um lugar que aqueles que viravam a cabeça para não a ver, talvez não quisessem enxergar.

A poesia também deixava aquela mulher viva, talvez muito mais viva do que os que passavam por ela. Viva como o amigo do senhor da livraria. Comecei a pensar que poesia é muito mais que palavras conexas de uma forma interessante. Poesia é, em si, um ato, uma ação, uma máquina que inventa novas visibilidades atacando as invisibilidades que o mundo produz. É construir vida, imprimir sensibilidade a um mundo embrutecido; é uma guerra declarada à sordidez de uma humanidade capaz de se produzir sobre lugares de desumanidade; é pensar para além da ordem das ideias; desbravar o silêncio; revolucionar a pretensa sobriedade do mundo; enfim, simplesmente poetizar-se.

Sobre o autor:

 Bruno Malheiro é professor da Unifesspa, atualmente fazendo Doutorado na UFF – Rio de Janeiro.

 

Por Anete Pitão, do Studio Jovem, idealizadora do Programa de Mentoria Geração de Impacto.

 

Ei! você aí consegue concluir aquilo que começa?

Ou fica patinando e dando voltas em torno do nada e cheio de resultados iguais?

Quantas promessas (ou metas) conseguiu realizar nesses primeiros meses do ano? Bem, se a resposta for "Poucas", sugiro ler até o final.

Entrar em ação é o único caminho para reunir resultados.

A ideia precisa virar ação imediatamente, pois dando certo ou não é somente colocando em prática que qualquer ajuste pode ser feito e aperfeiçoado.

Experts em projetos não realizados não dá né?!

Talvez o que te paralise seja o teu sendo crítico sobre si mesmo: “Não está bom”, “Não vou conseguir fazer”, “Não vai dar certo” e por aí vai o show de boicotes.

Quanto mais deixar seus julgamentos em todos os níveis mais se sentirá livre e se permitirá errar, cair e seguir em frente com coragem.

Mas perá lá, você prefere uma ideia incrível guardada ou uma ideia implantada? Ideia boa mesmo é aquela realizada, revista, aperfeiçoada.

Entre em campo para ganhar o jogo, a tua jogada vai inspirar muita gente. Não viva a vida do quase lá.

Quase mandou o e-mail, quase viajou, quase conseguiu a vaga, quase trocou de emprego, quase concluiu aquele curso.

Uma vida de quase é a vida quase feliz. 

Muitas vezes não conseguimos realizar tudo aquilo que planejamos. Mas isso é regra ou exceção na tua vida?

Agora se na tua vida o quase lá virou uma regra, cuidado! Está na hora de dar uma repaginada. Fazer uma reorganização das estratégias. Rever tudo ou às vezes um ponto que pode ser o grande impedimento para ultrapassar a linha de chegada.

Existe uma palavra mágica. Simples: Foco!

O foco vem pela clareza na direção, pois chegar rápido no lugar errado não tem vantagem, não é mesmo!? E seguir sem saber a direção também é um complicador.

Um alerta: Evite situações que desviem a atenção ou coisas que não são prioridade para atingir o objetivo.

É preciso convergência de força e de ação num ponto e colocar a energia numa direção, potencializar habilidades para produzir as condições necessárias para conseguir os resultados desejados.

Para isso muitas vezes é preciso abrir mão de algo, deixar de fazer algo, deixar de desfrutar ou comprar. Abrir mão.

Na verdade foco também passa por escolhas, escolher com assertividade as ações que levam para o objetivo. 

Que tal livrar o ano novo de ser moradia apenas de mais promessas e aproveitar o restante dele para realizar antigos e novos sonhos.

Substitua o “quase”. Certamente palavras não faltam para quem quer realizar muito.

 

Anete Pitão

Criadora do Studio Jovem

www.studiojovem.com.br

Idealizadora do Programa de Mentoria Geração de Impacto

Wapp (21) 99919-4393

 

Por Eduardo Galeano

 

A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?

A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.

A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.

“Gente infeliz os que vivem a comparar-se”, lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Quando não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade severa” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.

Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald’s, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald’s, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.

Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.

A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.

Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas têm o gosto de juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.

O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.

A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.

A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

 

(*) Autor é um dos maiores escritores da América Latina (falecido recentemente).

 

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