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Com uma participação ativa perante os problemas e questões do sul e sudeste do Pará, um conjunto interdisciplinar de docentes e discentes da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) vem desenvolvendo atividades de pesquisa, extensão e acompanhamento no acirramento do conflito pela terra na região. Desde meados de 2017, estas ações se intensificaram refletindo a preocupação da comunidade universitária diante da gravidade e frequência da violência no campo brasileiro, em especial nesta parte do Pará.

Na semana passada, foi divulgado um diagnóstico da realidade atual no acampamento Dalcídio Jurandir, produzido por um grupo de pesquisadores da Unifesspa. O objetivo do relatório é diagnosticar e analisar a realidade atual socioprodutiva e de infraestrutura do Acampamento Dalcídio Jurandir, criado em 2008, às margens da BR 155, a 28 km da cidade de Eldorado dos Carajás, que enfrenta uma liminar de despejo.

Dentre os dados coletados pela pesquisa, destaca-se a existência da escola Carlito Maia, com 175 estudantes matriculados este ano, e por ser reconhecida pelo MEC já recebe repasses da Prefeitura Municipal de Eldorado dos Carajás. Desse total, 62% são crianças menores de 11 anos.

Condições produtivas - 184 mil litros de leite ao mês

De acordo com o relatório, 27% da população do acampamento trabalha nos lotes, produzindo mensalmente mais de 184 mil litros de leite, dos quais apenas 3,6% são para o consumo familiar, o restante sendo vendido por toda a região, e chegando até Belém. O gráfico abaixo demonstra o destino da produção de leite do acampamento, por município.

Quanto a produção de farinha de mandioca no acampamento, o volume total alcança 174 toneladas por ano, sendo que apenas 4,5% é para o consumo e o restante é vendido por toda a região. Também foram analisados documentos sobre a história do acampamento e aspectos educacionais. De acordo com as pesquisas, o acampamento foi constituído por trabalhadores que foram deslocados da área Cabanos, do complexo da Fazenda Baguá, hoje, um Projeto de Assentamento.

Os dados apresentados e analisados são resultado de um conjunto de ações da Unifesspa no Acampamento, por meio de projetos de pesquisa e extensão, até a coleta de informações empreendida, entre os dias 28 e 30 de novembro de 2017, por uma equipe interdisciplinar de professores, pesquisadores e discentes da universidade, contando ainda com a colaboração dos professores e de estudantes da Escola Carlito Maia, localizada no acampamento.

A coleta dos dados ocorreu através da aplicação de questionários sobre a produção e a comercialização, do preenchimento de formulário socioeconômico das famílias, da delimitação espacial das áreas produtivas, das infraestruturas existentes, com uso de GPS e do registro fotográfico. Dentre outros, foram fundamentais os dados concretos aportados pelos projetos de pesquisa dos professores Rogério Rego Miranda, da Geografia, e Rodrigo Muniz, da Fecampo, os quais ajudam dimensionar o gravíssimo impacto econômico e social dos despejos para a região.

Conclusão

O resultado da análise revela que o Acampamento Dalcídio Jurandir não apenas desenvolve atividades produtivas no manejo da terra, contribuindo para as dinâmicas econômicas internas e do entorno do acampamento, como destaca que a relação de pertencimento cultural construída com a terra pelos moradores constitui fator que deverá ser levado em conta no que tange à legitimidade da posse da terra. Sublinha-se, ainda, preocupação premente, tendo como base desocupações anteriores, de que o poder público não seja eficaz na tarefa de proteger os direitos e a vida das famílias, sobretudo de suas crianças, caso se mantenha a decisão da justiça de cumprir liminar de reintegração de posse, já que o destino, o acolhimento e o acesso à moradia, educação e saúde não têm constituído preocupação estatal após a desocupação.

O diagnóstico da realidade atual no acampamento Dalcídio Jurandir foi ajuntado ao processo judicial, cuja audiência aconteceu nesta quarta-feira (13), no Fórum de Marabá, contando, inclusive, com a participação do professor doutor Jerônimo da Silva e Silva, do Instituto de Ciências Humanas da Unifesspa. O professor é coordenador do projeto de extensão “Memória Social e Luta pela Terra” que, há dois anos, desenvolve pesquisas de base teórica e metodológica, no campo da Antropologia, o qual alimenta boa parte do relatório feito pela equipe interdisciplinar. A ação de despejo dos moradores do acampamento Dalcidio Jurandir  foi adiada para o da 5 de fevereiro de 2018, tempo concedido pela Justiça para que seja resolvido administrativamente junto ao Poder Executivo a questão da compra e venda do imóvel, uma vez que há um processo em trâmite no Incra.

Posicionamento

A Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) vem se posicionando contra a violência no campo e se solidarizando aos camponeses, quilombolas e indígenas na luta pela terra e pelo território na Região. Ao longo do ano, foram realizadas diversas ações em defesa desses povos, a exemplo do manifesto público em defesa dos povos do campo, realizado em julho deste ano, na Unidade I do Campus de Marabá. Docentes e discentes da Unifesspa intensificaram suas ações de pesquisa e acompanhamento e produziram, recentemente, entre outros trabalhos técnicos, uma relatório de acompanhamento do despejo no acampamento Helenira Resende , ocorrido no último dia 27 de novembro. No dia 24 de novembro, foi publicada uma carta contra a violência no campo e pela dignidade humana, assinada por reitores de instituições federais de ensino superior do Pará, numa ação articulada pela Reitoria da Unifesspa.

(Fonte: Unifesspa)

 

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